Textos
Nós e os Outros
Conversação com Namkhai Norbu Rinpoche sobre relacionamentos interpessoais - Entrevista realizada em Merigar, em fevereiro de 1990, por Karin Koppensteiner e Cesare Spada
Cesare: Queremos lhe perguntar Rimpoche, qual é a base de um bom relacionamento com os outros, e quais são os maiores obstáculos ao tentar estabelecê-lo?
Namkhai Norbu : Para ter bons relacionamentos é de fundamental importância ter entendido o que é o respeito que se precisa nutrir por cada indivíduo; esta é a base sobre a qual pode-se estabelecer relacionamentos harmoniosos com os outros. Quanto ao principal obstáculo que se encontra – e devemos identificá-lo bem-, é o egoísmo. Cada pessoa, cada indivíduo particular, baseia-se primeiramente, quase que totalmente, sobre o próprio interesse pessoal, vendo somente o seu mundo e não o dos outros; agindo assim, com esta visão restrita, limitada prejudica os outros, não manifestando o respeito que deveria. Sem o respeito não existe uma maneira de colaborar. Tudo, eu penso, depende deste ponto de fundamental importância.
Cesare: Precisamos “nos defender” dos outros, quando nos sentimos ameaçados, por exemplo, frente à arrogância, ou para não dizer pior, frente à agressão?
Namkhai Norbu: O princípio que deve ser entendido não é realmente o de defender-se; defender-se significa ir exatamente na direção dos próprios limites; deve-se, ao contrário, tentar fazer a outra pessoa entender que ela está se mostrando arrogante, e que a própria arrogância não é outra coisa que uma manifestação de seu egoísmo; isto é bem mais importante do que qualquer defesa, porque, repito, se eu me defendo, entro no mesmo modo de ver limitado que no caso provoca a “ofensa”, e me torno também escravo dos meus limites.
Cesare: Em nossa sociedade hoje, nesta parte do mundo, os relacionamentos entre pais e filhos são difíceis em sua grande maioria; qual é a causa?
Namkhai Norbu: Também aqui é o mesmo, vale o discurso feito antes: a coisa mais importante é o respeito. Se os pais respeitam os filhos, no sentido de darem espaço a eles, de prestarem atenção em sua ‘dimensão’, então nasce imediatamente nos filhos a mesma compreensão, e o relacionamento entre pais e filhos é bom desde o início, quando os filhos ainda são pequenos. Quando isto não acontece, quando os pais estão presos ao seu modo de ver limitado, egoísta, seguramente surgirão tensões no relacionamento, que crescerão gradualmente, dia após dia, e mais tarde os mesmos filhos vão sentir, e não se encontrarão bem na vida, porque não foram bem acompanhados no seu crescimento.
Karin: Gostaríamos de voltar, se não for um problema, à pergunta anterior, mas em um caso-limite, o de uma agressão de verdade: se alguém nos agride fisicamente, é bem difícil permanecer relaxado.
Namkhai Norbu: Nesse caso, o ponto importante não é o de permanecer relaxado; certamente não é preciso reagir com crueldade, com um comportamento parecido com aquele da outra pessoa; ao invés, é preciso “trabalhar com a clareza”: entender as circunstâncias particulares em que nos encontramos, e qual o melhor modo para criar uma comunicação, uma compreensão recíproca, fruto da troca com o outro. Pode ser que às vezes seja muito melhor não dizer nem uma palavra, porque o outro está muito tenso, acumulou muitas tensões; mas na vida, quando se quer, sempre se encontra o momento certo para demonstrar algo através do raciocínio. O princípio é o de não se deixar levar, de não “ser carregado” pelo outro, procurando depois o momento apropriado para que ele entenda como são as coisas – no caso, a arrogância demonstrada pelo seu comportamento.
Mesmo fazendo isso, depois também é preciso ter em mente que manter um comportamento crítico em relação aos outros, como base exclusiva do relacionamento com eles, seguramente não é um princípio de base. Muitos têm este tipo de atitude; (mas) o princípio fundamental, ao contrário, é o de observar, antes de tudo, a si mesmo como no exemplo do espelho. Fazendo isso, pode-se descobrir qual é a própria condição e posteriormente até o porque da arrogância do outro, qualquer que seja a causa, e porque se manifesta; ver as coisas em conjunto, pode facilitar a resolução dos problemas que se apresentam a cada vez.
Karin: Voltando a falar do relacionamento entre pais e filhos, alguns livros sobre a cultura tibetana informam o fato de que examinando o pulso dos filhos, o médico tibetano tem condição de entender o estado de saúde dos pais. Existe, então, uma relação particular entre as energias dos pais e a dos filhos?
Namkhai Norbu: Sim, seguramente! Não somente é verdade que, pelo exame do pulso dos filhos, pode-se remontar ao estado de saúde dos pais, mas também o inverso é verdade, e isso porque entre pais e filhos existe um relacionamento real, um relacionamento que antes de tudo é físico e depois, podemos dizer, também é espiritual.
Karin: Se este relacionamento é tão forte, é um relacionamento que não admite rupturas, que não pode ser interrompido de nenhuma forma, ou existe algo que pode romper esta ligação entre pais e filhos?
Namkhai Norbu: Não é um relacionamento que deva ser rompido, ou que necessariamente deva criar constrições; é um relacionamento natural, ligado à nossa mente, às nossas tensões, se existirem, e que, se existem, se manifestam. Com respeito a um relacionamento, o que pode levá-lo a ser rompido, ou ao sentimento de um relacionamento constritivo, é, de modo especial, a tensão.
Karin: A ligação que se manifesta no nível corpóreo não é interrompida somente pela morte?
Namkhai Norbu: Penso que sim.
Cesare: A pergunta que queremos fazer agora é: nos relacionamentos entre homem e mulher o que determina a união e a duração?
Namkhai Norbu: A duração é determinada pela compreensão porque, baseando-se somente na paixão, sem alguma compreensão, não temos e nem poderemos ter duração no relacionamento, que depois de algum tempo se desenlaçará. O relacionamento entre homem e mulher no início está ligado principalmente à paixão. Quando a paixão caminha junto com a compreensão, compreensão do respeito que é necessário ter para que exista um relacionamento harmonioso entre as pessoas, se poderá ter um relacionamento duradouro; do contrário, ele irá durar até desbotar-se, até que desapareça o sentimento que, dizemos, está ligado à atração sexual. Esta última acaba e, quando isso acontece, todos se surpreendem, como se fosse algo inesperado.
Karin: Freqüentemente acontece de um homem e uma mulher não estarem conscientes das próprias necessidades, de maneira que seguem a paixão, ou a atração sexual, entendendo somente mais tarde que não têm muito em comum. Uma vez que se entende isso, o que fazer?
Namkhai Norbu: Se faltar a compreensão das coisas, surgem inevitavelmente os problemas, em grande número, isto quer dizer que é preciso entender aquilo que deve ser entendido.
Karin: Mas pode-se também entender que não há nada que possa ser feito?
Namkhai Norbu: Como nada pode ser feito?
Karin: Se, tendo seguido a paixão, em um certo momento, ao começar a diminuir o interesse inicial, percebe-se que o entendimento com o próprio companheiro, ou companheira, tornou-se muito difícil, o que fazer? Nesse ponto percebe-se que compartilhar toda a vida será muito duro.
Namkhai Norbu: Uma pessoa que tenha um pouco de compreensão da vida e do relacionamento entre as pessoas, com esta compreensão, constrói, desde o início, o relacionamento, não vai para frente como um cego. Portanto, muito depende do começo, da construção gradual do relacionamento.
Karin: No relacionamento entre as pessoas, por exemplo, entre pais e filhos, entre parentes, entre marido e mulher, pode acontecer de haverem-se acumulado tensões por causa da pouca presença e consciência das circunstâncias. Assim, podemos nos encontrar em uma situação em que, mesmo sabendo que devemos relaxar, e que não devemos atribuir às coisas uma importância excessiva, não conseguimos fazê-lo. O que fazer neste caso, quando a tensão tornou-se tão grande?
Namkhai Norbu: Se formos escravos das circunstâncias, ligados àquele estado de tensão, finalmente não conseguiremos mais nos dominar e, assim, explodiremos. Se, ao contrário, mesmo que só um pouco, estivermos tentando aplicar o ensinamento, praticar somente um mínimo, aqui a prática principal seria entender o que está acontecendo. Porque “carregar-se”? Acumular tensões não serve para nada. Uma vez entendido isto é fácil liberar-se das emoções negativas. O Buddha disse que tudo é irreal. Tudo é ilusão; a verdade é esta, não é? Quando alguém nos insulta, nos ofende, nós consideramos o acontecido uma coisa de grande importância, ficamos atordoados. Mas o que acontece realmente? Exatamente nada! Nós nos “carregamos”. Como será, ao invés disso, não se acumularem tensões desse modo? Ao invés de tantos problemas, teremos paz e um pouco de respeito por cada individuo, por cada pessoa humana – ‘libera-se’. Quando não se quer compreender tudo isso, ‘explode-se’. Essas são as duas soluções, não existem outras. O ensinamento também ajuda a aprender como liberar as paixões concretamente; mas para fazer isso não é suficiente aprender algo no nível de bonitas palavras, é preciso integrar o sentido disso na vida real, vivê-lo.
Cesare: A última pergunta que queremos lhe fazer não é certamente a última em importância. Queremos perguntar-lhe se pode nos dizer algo sobre o relacionamento entre praticantes. Pedir, se possível, um conselho…
Namkhai Norbu: Para muitos, este é o ponto mais difícil de entender e aplicar. Eu tive muitas dificuldades, até esse momento, para fazer entender este ponto aos praticantes da Comunidade. De fato, ou não entendem, ou não atribuem a isso grande importância. Até hoje me pergunto qual das duas hipóteses é a verdadeira. Eu sei que já expliquei muitas e muitas vezes o quanto é importante ter um relacionamento puro e harmonioso entre praticantes, entre aqueles que se chamam de “irmãos e irmãs de Vajra”; sei ter dito repetidamente que este relacionamento entre praticantes tem o mesmo valor daquele entre mestre e estudante. O valor do relacionamento é igual porque o princípio da origem é o mesmo: ambos estão ligados à transmissão.
Naturalmente, isso não quer dizer que não possa acontecer nem uma briguinha, que não possa acontecer, por exemplo, de alguém ser um pouco nervoso e surgir algum problema. Pode acontecer, porque estamos no samsara, estamos no mesmo âmbito de limitações, e todos temos alguma limitação. Porém, além disso, em um lugar um pouco escondido em nós existe a consciência, a consciência de quem somos, de onde estamos, de como vivemos. Tendo essa compreensão, mesmo que aconteçam muitas coisas desagradáveis, tudo pode ser superado, desatado, liberado. O princípio do ensinamento Dzogchen é de fato o da autoliberação, mas como poderemos um dia nos autoliberar, se não conseguimos nos liberar minimamente das tensões que nascem do relacionamento com uma outra pessoa? Tudo fica no nível de palavras vazias!
Revisão: Vera de Andrada e Silva. / IPC Brasil – 14/08/2005